Entre os dias 23 e 27 de março, os alunos da Turma 2025 do Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (ESCAS) estiveram na sede do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, em Nazaré Paulista(SP), para uma semana de imersão. Na disciplina “Mapa do Tesouro” os alunos se aprofundaram nos desafios socioambientais do território, conhecendo algumas das ações realizadas pelo IPÊ através do Programa Semeando Água para a conservação da biodiversidade e sustentabilidade na região.
Durante esse período, os mestrandos visitaram propriedades rurais parceiras, viveiros e escolas públicas para observar as estratégias aplicadas pelo Programa Semeando Água, uma parceria entre o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas e a Petrobras através do Programa Petrobras Socioambiental – estabelecida por meio de convênio entre as duas instituições, para melhoria da resiliência hídrica do Sistema Cantareira através de uma mudança positiva no uso do solo da região.
Segundo a coordenadora do mestrado, Cristiana Martins, “Esta disciplina é muito importante no programa, pois os alunos consolidam tudo que já viram anteriormente, através de visitas técnicas no campo, olhando projetos da instituição e interagindo com pesquisadores e beneficiários. O programa Semeando Água é parceiro nesta iniciativa, e abre suas portas aos mestrandos, proporcionando a integração que procuramos entre a teoria e a prática”.
Na terça-feira, os alunos realizaram uma visita técnica ao Sítio Jacarandá, em Nazaré Paulista, onde o proprietário Marcelo Haddad criou uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Com o apoio do Programa Semeando Água a antiga monocultura de eucalipto está passando por um processo de Restauração Florestal que tem como objetivo a diversificação das espécies. Dessa forma, a RPPN contribui com a conservação da biodiversidade e aumento de infiltração de água no solo. Na Unidade Demonstrativa já foram realizadas pesquisas para o monitoramento da fauna, através da instalação de gravadores que captam o som das aves que frequentam o local.
Na quarta-feira, os alunos conheceram o Sítio Rancho Alegre, onde o Programa Semeando Água implementou 22 hectares de Manejo da Pastagem Ecológica. No sítio de Marcio Peçanha o pasto foi dividido em 45 piquetes. O controle do deslocamento dos animais reduz o pisoteio e melhora o aproveitamento da área de pastagem. Nas divisórias dos piquetes foram plantadas linhas de árvores nativas da Mata Atlântica, que descompactam o solo e servirão como áreas de sombra para descanso. A técnica visa reduzir a compactação do solo, além der contribuir para a infiltração de água e reabastecimentos dos lençóis freáticos. Outra vantagem é a possibilidade de aumentar do número de animais por hectare com melhor aproveitamento do pasto.
Na parte da tarde, a visita técnica foi no Sítio Família Orgânica, em Piracaia, uma propriedade onde Alejandra, que é também aluna do mestrado, e Dercilio Pupin estão há mais de dez anos regenerando o solo e produzindo alimentos saudáveis. No sítio está localizada uma das nascentes do ribeirão quatro cantos, que desagua no rio cachoeira, depois no rio Atibaia e, dessa forma, contribui diretamente para o abastecimento de milhões de pessoas nas Regiões Metropolitanas de São Paulo, Campinas e Piracicaba.
Na quinta-feira, os alunos conheceram o Viveiro Da Serra, localizado em Joanópolis, referência em ações de restauração na região. É nesse viveiro que são produzidas muitas das mudas destinadas as ações de Restauração Florestal do Programa Semeando Água. Na parte da tarde os alunos conheceram a Escola Climática E. E. Profa. Maria Eloisa Pinheiro Ramos. Lá o Coletivo Socioambiental Ipê-branco cuida de um Sistema Agroflorestal, com mais de 40 espécies de árvores nativas e frutíferas. Na escola também é realizada a separação dos resíduos recicláveis e a compostagem dos resíduos orgânicos se transforma em adubo.
O último dia de atividade aconteceu no Sítio Primavera, onde Eloisa, outra aluna da ESCAS, e Junior Pinheiro compartilharam como foi seu processo de Transição Agroecológica na produção de flores. O casal é especialista na produção de Microrganismos Eficientes (EMs), que utilizam para nutrição e prevenção de pragas em seus cultivos.
Encerramento relacionando contexto global e local
O encerramento da semana se deu com a apresentação da pesquisadora Luz Adriana Cuartas, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). A palestra foi uma oportunidade aprofundamento no tema “Secas e Recursos Hídricos num clima em mudança na América Latina e Brasil”. Curtas trouxe dados internacionais e demonstrou como as tendencias de redução de precipitação estão relacionadas à atual situação do Sistema Cantareira, observada pelos alunos em campo.
Sobre a relação entre conservação da biodiversidade e mudanças climáticas, a pesquisadora destacou a importância de perceber o que está acontecendo a nível global e o porquê estamos nessa situação.
“Não é só a emissão de Gases de Efeito Estufa, o carbono. O desmatamento tem outros componentes, estamos acabando com todos os biomas, ecossistemas. São dois componentes que estão fazendo com que a gente esteja vivenciando tudo o a gente está vivenciando em termos de mudanças climáticas, mudanças ambientais. Então, acho que para os alunos é importante entender o todo e ver como eles realmente podem contribuir para tentar frear um pouco essa situação e saber que pode ser feita alguma coisa. É isso que é importante, que eles entendam também podem contribuir.”
A semana de imersão foi finalizada com uma roda de conversa entre alunos, docentes do mestrado e pesquisadores e orientações sobre os próximos passos do curso.
Alunas saem inspiradas para fazer parte da solução dos desafios socioambientais da região
Thaís Rosa, aluna que já atua com Manejo Integrado do Fogo na região compartilha que
“Visitamos pessoas e lugares que eu não esperava conhecer. Foi muito emocionante ouvir as histórias de pessoas muito próximas da gente, entender um pouco mais do contexto aqui da região. Às vezes não temos essa percepção de como é o território que a gente mora, onde a gente consegue atuar da melhor forma. É uma diversidade de pessoas, de modos de olhar a terra que não dá para colocar tudo no mesmo bolo e fazer projetos padrão. Cada um tem sua peculiaridade, o seu modo de lidar, que tem que ser muito respeitado. Foram histórias muito emocionantes, foi muito inspirador.”
Cristiane Leme destacou a importância da troca de conhecimento e o aprendizado com os proprietários rurais.
“Esse olhar deles sobre o território, olhares muito diversos. Cada um ali com o seu propósito, com o seu modelo de negócio, com a sua forma de se relacionar com a terra, com os vizinhos. Dá a impressão de que o tempo que a gente ficou lá foi curto, para o tanto de conhecimento que tem ali. Essa imersão no território é importante para pensar nos projetos do programa de mestrado, no que mergulhar. Quando você aterriza no território, consegue pensar em como aproximar a jornada de estudante da solução de problemas. Consegui me inspirar através dessas pessoas.”
*Autoria: Projeto Semeando Água